Orlas de marés desconhecidas tocavam, no horizonte de ouvirmos,
praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade
escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam
caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e
comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o
ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos
em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado
em nós de que a consciência de o ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o
fundo monótono esquecido do mar eterno punham à nossa vida
abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali
acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos
nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e
do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais. . .
Ali vivemos horas cheias de um outro sentirmo-las, horas
de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais
à certeza retângula da vida. . . Horas imperiais depostas, horas
vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de outro
mundo mais cheio de orgulho de ter mais desmanteladas angústias
. . .
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos. . . Porque apesar do que
tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos
deste mundo, toda ela era úmida de um vago tédio, triste e enorme
e perverso como a decadência de um império ignoto.. .
Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz.
Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro
a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro.
A nossa atenção sonolente ao mistério de tudo isto é mole
como uma cauda de vestido arrastada num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um
absurdo consentido pela nossa inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa idéia do nosso
corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vemnos
de muito longe, como a nossa idéia de haver a nossa
vida. . .
Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos
ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo, riríamos
sem dúvida de nos imaginarmos vivos. O frescor aquecido dos
lenços acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se
sentem, um ao outro nus.
Desengunemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos
a sermos nós. . . Não tiremos do dedo o anel mágico que
chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da
sombra e pelos gnomos do esquecimento. . .
E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós, outra
vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação
e mais triste da nossa tristeza. Foge diante dela, como
um nevoeiro que se esfolha, a nossa idéia do mundo real, e eu
possuo-me outra vez no meu sonho errante, que esta floresta
misteriosa esquadra. . .
As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia
para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia.
não nelas mas na melodia de seus nomes.. . Flores cujos nomes
eram repetidos em seqüência, orquestras de perfumes sonoros.
Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no
como eram chamadas. . . Frutos cujo nome era um cravar de
dentes na alma da sua polpa. . . Sombras que eram relíquias de
outroras felizes. . . Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos
mais francos da paisagem que se boceja em próxima. . . ó
horas multicolores!. . . Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo
estagnado em espaço, tempo morto de espaço coberto de
flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de
flores!. . .
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume
do amor. . . Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos
nós. . . E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa
carne, que não éramos uma realidade. . .
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer. . . Éramos
aquela paisagem esfumada em consciência de si própria. . .
E assim como ela era duas — de realidade que era, e ilusão
— assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo
bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro vivera.
. .
Quando emergimos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-
nos a querer soluçar. . . Ali aquela paisagem tinha os
olhos rasos de água, olhos parados cheios de tédio inúmero de
ser. . . Cheios, sim, do tédio de ser qualquer coisa, realidade ou
ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e
no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o
saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à
beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado
e absorto. . .
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem
nós, que por ali íamos, ali estávamos. . . Porque nós não éramos
ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma.. . Não tínhamos
vida que a morte precisasse para matar. Éramos tão tênues e
rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora
passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo de
uma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das
coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência.
Imobilizar-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos
troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a
alma vergada dos frutos. . .
E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente
a morrê-la que não reparamos que éramos um só, que cada
um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o
mero eco do seu próprio ser. . .
Zumbe uma mosca, incerta e mínima. . .
Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que
enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto...
Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei.
Tudo se funde e só fica, fingindo, uma realidade-bruma em que
a minha incerteza soçobra e o meu compreender-me, embalado
de ópios, adormece. . .
A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora.
. . Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida,
as achas dos nossos sonhos.. .
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque
cansa, da vida, porque farta, e não sacia, e até da morte, porque
traz mais do que se quer e menos do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque
se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos. . .
Cubramos, ó silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil
hirto da nossa Imperfeição. . .